20091116

Anotações de leitura

“A arte de escrever histórias consiste em saber extrair daquele nada que se entendeu da vida todo o resto; mas, concluída a página, retoma-se a vida, e nos damos conta de que aquilo que sabíamos é realmente nada.”

(O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino)

20091113

Menos 31 dias

Quando eu acho que já não há mais nada a conhecer de reggae e que os bípedes intolerantes a qualquer coisa com propriedades auditivas ou herbáceas que remeta a uma certa ilha caribenha devem ser deixados em paz na MODORRA que escolheram para gastar suas vidas, me aparece este Juninho Inglês. No ato me lembrei de Curtis Mayfield, caso Curtis tivesse nascido na região metropolitana de Kingston e competisse com NESTA para ver quem conseguiria fazer de uma canção o atalho mais rápido para o cérebro límbico das sonhadoras. O sentimento emanado é o mesmo; a linguagem universal que transcende estilos musicais para proclamar o óbvio: pior do que sofrer por amor é não amar. Chora, coração!

JUNIOR ENGLISH, Heading for the Wrong Direction

20091112

67 anos, mas com corpinho de 39

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PAULINHO DA VIOLA, Comprimido

20091106

Menos 24 dias

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O fato de ter Suicidal Tendencies estocado no acervo RESIDENTE do player, isto é, naqueles 100 megas imunes ao hype, diz muito sobre um homem. Agora, o fato de o Poder Randômico escolher isso para rolar quando se está dentro de um ônibus no sentido Campeche-Centro – vendo a restinga que separa o asfalto da praia sendo detonada para construção de prédios com todas as facilidades de um clube (ainda vou escrever um tratado sobre como a criação do espaço garage band nos condomínios modernos matou o rock’n’roll), achando um crime de lesa-natureza e doido para viver ali, de cara para a Ilha do Campeche – diz muito mais do que qualquer aposto gigantesco faz supôr. A ocasião exige a tomada de grandes decisões.

Preciso comprar créditos para o meu cartão-cidadão.

SUICIDAL TENDENCIES, Choosing My Own Way of Life

20091104

Oiticica revisitado [ns]

20091022

Menos nove dias

A leitora fissurada em novela talvez não saiba, mas houve um tempo em as trilhas sonoras dos folhetins eletrônicos eram feitas com esmero. Quando não existia essa mamata de baixar músicas grátis pela internet, os discos com os temas de cada personagem cumpriam a função de apresentar artistas que jamais seriam lançados no incipiente mercado nacional aos silvícolas. Foi assim que milhares de telespectadoras de Cavalo de Aço, exibida pela Globo em 1973, tomaram conhecimento de “The Snake”, do El Chicles, que irrompia a cena toda vez que Santo (Carlos Vereza) aparecia. O jeitão latino psicodélico do instrumental, descrito na coletânea em que descolei a música como “uma cruza de Serge Gainsbourg [faz sentido] com Radiohead [viajou]”, mascara sua verdadeira origem: o mesmo grupo belga de músicos de estúdio que também gravou sob o nome de Chakachas.

Aqui eu dispenso o Google para dizer que então já conhecia esses caras. Estão no filme Boogie Nights, emprestando gritos e sussurros para as peripécias falocêntricas do espadaúdo Dirk Diggler. A sacanagem é não ter descoberto isso antes.

EL CHICLES, The Snake

20091018

Hitchcock em série

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[via Neatorama]

20091016

Menos três dias

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Um dá o ar da graça com sua alegriazinha. Outro lançou disco com nome trocado. O terceiro acaba de ser internado em um rehab. Ou ando muito desinformado ou Julian Casablancas é muito discreto. Tirando Nick Valensi, ele é o stroke de quem menos ouvi falar nos últimos meses – justamente aquele que atraía a maior parte das atenções quando a banda estava na ativa. Enquanto o quinteto não volta, o filho do descobridor de algumas das mais famosas modelos do mundo também vai sair em aventura solo. Seu primeiro single é essa TETÉIA aí embaixo, diferente – para melhor – de qualquer coisa que tenha feito com o grupo e dos trampos paralelos de seus integrantes.

Respeitei.

JULIAN CASABLANCAS, 11th Dimension

20091015

Sem medo da água quente

(coluna publicada no jornal Correio Popular, de Campinas/SP, em 10 de outubro de 2001)

Era um cara que facilitava a tarefa da posteridade. Teve o cuidado de olhar para o relógio e anotar a hora exata em que resolveu o que fazer. À 1h57 da madrugada de uma terça, ele matou a charada. E disse “não”. Chamou o amigo, que estava botando som para ninguém, e lhe contou. Seus olhos emitiam um brilho esquisito, realçado pela iluminação roxa do local. Jogado em um sofá no canto da pista vazia, refletia sobre a decisão recém-tomada. Em questão de segundos, ia de uma certeza que dilatava suas pupilas a uma insegurança que deixava suas mãos suadas e cerrava seus dentes, um nervosismo que um trago ou uma tragada poderiam aliviar. Mas ele não bebia e estava sem o seu cigarro.

Lembrava de uma entrevista com o Angeli que lera em uma Caros Amigos. Depois cometeu um aposto em seu raciocínio, só para destacar que a revista nem era dele, era de um amigo que ainda comprava leitura universitária. Leitura universitária... De uns tempos para cá, ele estava com a mania de usar esse rótulo, “universitário”, para definir qualquer coisa que não sabia por que considerava tão irritante. Não existia o forró universitário, um sucesso? Então. Sem muito esforço, ele conseguia detectar também o pop universitário, o funk universitário, o rap universitário, os filmes universitários, os programas de TV universitários, os DJs universitários, os estilistas universitários.

Voltou ao Angeli antes que fosse muito longe para retomar o fio da meada. Na referida entrevista, o cartunista explicava a ausência de seus trabalhos em certas empresas que monopolizam a comunicação. Nada a ver com liberdade, pois isso seu talento conquistou na marra, e sim com grana. Angeli fala que, em determinados lugares, o fato de estar ali é oferecido como benefício extra-salário. Você terá plano de saúde, vale-transporte, vale-refeição e bônus semestral por desempenho (seja lá o que isso signifique), além de integrar os quadros de uma companhia reconhecida, importante e tal. Imediatamente, ele começa a analisar com mais carinho a tese de outro amigo seu. Que Liminha, que Nelson Motta! O verdadeiro inventor do rock brasileiro como o conhecemos hoje é Angeli.

Ainda saboreava o “não” que o cartunista esfregou e esfregava na cara dos barões quando um calafrio partiu de seu joelho esquerdo, vindo se alojar na altura de seu fígado. Mentiu para si mesmo e culpou o esdrúxulo drinque à base de menta que fora parar em sua mão. Na verdade, seu t(r)emor tinha outro motivo: ele não era o Angeli. Não contava com um milésimo de tanta moral, embora rivalizasse em termos de ego. A dúvida lhe assaltou. Devia ter dito “sim”, pego o seu dinheiro (que, se não era muito, era bom) e aproveitar o logotipo no crachá para tirar onda com a família – o tal benefício extra-salário. Há pouco, seu colega de mercado aceitara proposta similar, compensando a previsível frustração com uma poupança para morar no exterior.

Não, isso não funcionava para ele. Não precisava ser desse jeito. Mas havia outro jeito? Seu último chefe o alertou em várias ocasiões: só se descobre o preço de um homem ao jogá-lo em um caldeirão de água quente. A música da Legião Urbana que ele mais gostava dizia algo parecido: “Você é tão esperto, você está tão certo, mas você nunca dançou com ódio de verdade”. O pai, ouvidor-mór, repetia: você pode até estar morrendo de fome, mas ninguém precisa saber disso. “O que é que você falou?”. Era seu amigo com o fone no ouvido acertando a próxima música, mais uma de alguma banda de Maceió. Aos 22 anos, o moleque não havia escutado o que ele lhe dissera quatro parágrafos atrás e não estava nem aí. Quero vê-lo com 30.

20091014

Menos um dia

THE PHENOMENAL HANDCLAP BAND, Testimony