20091106

Menos 24 dias

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O fato de ter Suicidal Tendencies estocado no acervo RESIDENTE do player, isto é, naqueles 100 megas imunes ao hype, diz muito sobre um homem. Agora, o fato de o Poder Randômico escolher isso para rolar quando se está dentro de um ônibus no sentido Campeche-Centro – vendo a restinga que separa o asfalto da praia sendo detonada para construção de prédios com todas as facilidades de um clube (ainda vou escrever um tratado sobre como a criação do espaço garage band nos condomínios modernos matou o rock’n’roll), achando um crime de lesa-natureza e doido para viver ali, de cara para a Ilha do Campeche – diz muito mais do que qualquer aposto gigantesco faz supôr. A ocasião exige a tomada de grandes decisões.

Preciso comprar créditos para o meu cartão-cidadão.

SUICIDAL TENDENCIES, Choosing My Own Way of Life

20091104

Oiticica revisitado [ns]

20091022

Menos nove dias

A leitora fissurada em novela talvez não saiba, mas houve um tempo em as trilhas sonoras dos folhetins eletrônicos eram feitas com esmero. Quando não existia essa mamata de baixar músicas grátis pela internet, os discos com os temas de cada personagem cumpriam a função de apresentar artistas que jamais seriam lançados no incipiente mercado nacional aos silvícolas. Foi assim que milhares de telespectadoras de Cavalo de Aço, exibida pela Globo em 1973, tomaram conhecimento de “The Snake”, do El Chicles, que irrompia a cena toda vez que Santo (Carlos Vereza) aparecia. O jeitão latino psicodélico do instrumental, descrito na coletânea em que descolei a música como “uma cruza de Serge Gainsbourg [faz sentido] com Radiohead [viajou]”, mascara sua verdadeira origem: o mesmo grupo belga de músicos de estúdio que também gravou sob o nome de Chakachas.

Aqui eu dispenso o Google para dizer que então já conhecia esses caras. Estão no filme Boogie Nights, emprestando gritos e sussurros para as peripécias falocêntricas do espadaúdo Dirk Diggler. A sacanagem é não ter descoberto isso antes.

EL CHICLES, The Snake

20091018

Hitchcock em série

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[via Neatorama]

20091016

Menos três dias

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Um dá o ar da graça com sua alegriazinha. Outro lançou disco com nome trocado. O terceiro acaba de ser internado em um rehab. Ou ando muito desinformado ou Julian Casablancas é muito discreto. Tirando Nick Valensi, ele é o stroke de quem menos ouvi falar nos últimos meses – justamente aquele que atraía a maior parte das atenções quando a banda estava na ativa. Enquanto o quinteto não volta, o filho do descobridor de algumas das mais famosas modelos do mundo também vai sair em aventura solo. Seu primeiro single é essa TETÉIA aí embaixo, diferente – para melhor – de qualquer coisa que tenha feito com o grupo e dos trampos paralelos de seus integrantes.

Respeitei.

JULIAN CASABLANCAS, 11th Dimension

20091015

Sem medo da água quente

(coluna publicada no jornal Correio Popular, de Campinas/SP, em 10 de outubro de 2001)

Era um cara que facilitava a tarefa da posteridade. Teve o cuidado de olhar para o relógio e anotar a hora exata em que resolveu o que fazer. À 1h57 da madrugada de uma terça, ele matou a charada. E disse “não”. Chamou o amigo, que estava botando som para ninguém, e lhe contou. Seus olhos emitiam um brilho esquisito, realçado pela iluminação roxa do local. Jogado em um sofá no canto da pista vazia, refletia sobre a decisão recém-tomada. Em questão de segundos, ia de uma certeza que dilatava suas pupilas a uma insegurança que deixava suas mãos suadas e cerrava seus dentes, um nervosismo que um trago ou uma tragada poderiam aliviar. Mas ele não bebia e estava sem o seu cigarro.

Lembrava de uma entrevista com o Angeli que lera em uma Caros Amigos. Depois cometeu um aposto em seu raciocínio, só para destacar que a revista nem era dele, era de um amigo que ainda comprava leitura universitária. Leitura universitária... De uns tempos para cá, ele estava com a mania de usar esse rótulo, “universitário”, para definir qualquer coisa que não sabia por que considerava tão irritante. Não existia o forró universitário, um sucesso? Então. Sem muito esforço, ele conseguia detectar também o pop universitário, o funk universitário, o rap universitário, os filmes universitários, os programas de TV universitários, os DJs universitários, os estilistas universitários.

Voltou ao Angeli antes que fosse muito longe para retomar o fio da meada. Na referida entrevista, o cartunista explicava a ausência de seus trabalhos em certas empresas que monopolizam a comunicação. Nada a ver com liberdade, pois isso seu talento conquistou na marra, e sim com grana. Angeli fala que, em determinados lugares, o fato de estar ali é oferecido como benefício extra-salário. Você terá plano de saúde, vale-transporte, vale-refeição e bônus semestral por desempenho (seja lá o que isso signifique), além de integrar os quadros de uma companhia reconhecida, importante e tal. Imediatamente, ele começa a analisar com mais carinho a tese de outro amigo seu. Que Liminha, que Nelson Motta! O verdadeiro inventor do rock brasileiro como o conhecemos hoje é Angeli.

Ainda saboreava o “não” que o cartunista esfregou e esfregava na cara dos barões quando um calafrio partiu de seu joelho esquerdo, vindo se alojar na altura de seu fígado. Mentiu para si mesmo e culpou o esdrúxulo drinque à base de menta que fora parar em sua mão. Na verdade, seu t(r)emor tinha outro motivo: ele não era o Angeli. Não contava com um milésimo de tanta moral, embora rivalizasse em termos de ego. A dúvida lhe assaltou. Devia ter dito “sim”, pego o seu dinheiro (que, se não era muito, era bom) e aproveitar o logotipo no crachá para tirar onda com a família – o tal benefício extra-salário. Há pouco, seu colega de mercado aceitara proposta similar, compensando a previsível frustração com uma poupança para morar no exterior.

Não, isso não funcionava para ele. Não precisava ser desse jeito. Mas havia outro jeito? Seu último chefe o alertou em várias ocasiões: só se descobre o preço de um homem ao jogá-lo em um caldeirão de água quente. A música da Legião Urbana que ele mais gostava dizia algo parecido: “Você é tão esperto, você está tão certo, mas você nunca dançou com ódio de verdade”. O pai, ouvidor-mór, repetia: você pode até estar morrendo de fome, mas ninguém precisa saber disso. “O que é que você falou?”. Era seu amigo com o fone no ouvido acertando a próxima música, mais uma de alguma banda de Maceió. Aos 22 anos, o moleque não havia escutado o que ele lhe dissera quatro parágrafos atrás e não estava nem aí. Quero vê-lo com 30.

20091014

Menos um dia

THE PHENOMENAL HANDCLAP BAND, Testimony

20091006

Dez desculpas manjadas para não atualizar o blog

1. Estou sem tempo
2. Quando sobra tempo, falta assunto
3. Não tenho publicado mais nada, mas ando comentando direto por aí
4. É de propósito, para ver se alguém reclama
5. Já me incomodei muito com coisas que escrevi aqui
6. É que estou preparando uma série de novidades
7. Twitter*
8. Deixa a loucura passar
9. Amanhã eu atualizo
10. Pode ser SÓ música, sem texto?

* a mais esfarrapada de todas, pois nem conta tenho

20090908

Missão: matar Che Guevara

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(Reportagem publicada na revista UM #1, novembro de 2004)

Em Capivari de Baixo, ele é o “gringo Gregório”, que ali chegou em 1989 para trabalhar como técnico mecânico e hoje dirige a pequena metalúrgica Saturno. Patrão de 31 funcionários, casado e pai de três adolescentes, o boliviano aponta satisfeito para o asfalto da rua onde mora. “Fizemos um mutirão para tocar a obra”, orgulha-se. Apenas mais um caso de empreendedorismo mesclado com responsabilidade social, não fosse o passado que, aos 58 anos, Gregório Santillan Merubia lembra com frieza. Em 1967, o titular da “libreta del servicio” nº 059246 do exército de seu país embrenhava-se pela província de Vallegrande, na divisa entre os departamentos (equivalente a estados) de Santa Cruz e Chuquisaca. A milhares de quilômetros da cidade catarinense, ele era o segundo-sargento “Gato”, codinome que adotou na caçada que culminou na morte de Che Guevara.

Filho de um químico e de uma dona de casa, Gregório nasceu em Catavi, na fronteira com a Argentina. Ainda moleque, mudou-se com a família para a capital La Paz. “Eu queria aventura”, diz. “Por isso, me apresentei na embaixada americana para lutar no Vietnã.” A gozação do oficial que o recebeu, aliada à surra que levou do pai, arrefeceu o ímpeto do rapaz de 17 anos. “Goyo”, como era apelidado, não precisaria ir tão longe para pegar em armas. Em novembro de 1966, um senhor careca, de terno e gravata e usando pesados óculos de grau, registrou-se na cidade como o economista uruguaio Adolfo Mena Gonzalez. Tratava-se de Ernesto Guevara de La Serna, o Che, disfarçado para libertar o continente do “imperialismo ianque”.

Em fevereiro do ano seguinte, Gregório alistou-se no serviço militar boliviano. A tropa a qual pertencia passou por Cochabamba, juntou-se a outros destacamentos e, finalmente, descansou no quartel Manchego, em Guabirá, sede do 12º exército de infantaria. “Depois de uma semana, os oficiais avisaram que a missão que nos aguardava seria dura, quem quisesse desistir estava livre”, conta Gregório, acrescentando que, “dos quase mil homens que compunham as tropas, uns duzentos foram embora”. Em uma tarde de sábado, jipes, caminhões e caminhonetes oferecidos pelo Pentágono transportaram os recrutas até Esperanza, a cerca de 250 quilômetros. O contingente foi dividido em quatro companhias, cada uma com quatro pelotões. Gregório ficou no terceiro pelotão da companhia A, liderado pelo tenente Eduardo Huerta.

O treinamento começou em um engenho açucareiro abandonado no meio da mata. Pela manhã, faziam ginástica, caminhavam 12 quilômetros e aprendiam a manejar armas. “Nos estimulavam gritando ‘que queremos?’ para todos responderem: ‘Matar!’”, afirma Gregório. À tarde, realizavam ações de inteligência – eufemismo da caserna para “espionagem”. Até o final das atividades, em agosto, ele se qualificou nos fuzis M2 (automático) e M1 (semi-automático) e em pára-quedismo e deslizamento de helicóptero.

Guevara, no resumo daquele mês no diário que manteve durante toda a sua temporada boliviana, sentia o ar carregado. “Estamos em um momento de baixa de nossa moral e de nossa lenda revolucionária. As tarefas mais urgentes prosseguem sendo (…) restabelecer contatos, incorporar novos combatentes, conseguir remédios e equipamento”, escreveu. Seus temores não eram infundados: a Central de Inteligência Americana (CIA) e as autoridades locais confirmaram sua presença no país em abril, ao capturarem o intelectual francês Regis Debray e o argentino Ciro Bustos em Muyupampa, um vilarejo no sul. Torturado, Debray confessou a verdadeira identidade do guerrilheiro “Ramón” (adivinhe quem). No acampamento de Gregório, porém, não se tocou no assunto. “A gente queria pegar o ‘Pombo’ [Harry Viegas Tamayo, do grupo de Guevara], um cubano moreno, alto e que havia matado alguns soldados”, garante.

Em 24 de setembro, as quatro companhias desfilaram por Santa Cruz de la Sierra, misturando-se à parada alusiva ao aniversário da cidade para alcançarem incólumes o quartel da oitava divisão do exército. À meia-noite, com os soldados ainda digerindo o jantar (“fricassé de carne de porco”), o coronel Joaquín Zenteno Anaya pediu a palavra. “Ele falou: ‘Chegou a nossa hora. Vamos entrar na zona de operações’”, recorda Gregório. Caminhões lotados de recrutas demoraram 15 horas para percorrer os 250 quilômetros até Vallegrande. No outro dia, o terceiro pelotão partiu para Pucará levando fuzis e mochilas com toalha, repelente, um par de botas, gaze, morfina e ração. “Inclusive o Brasil mandou suprimento da Marinha, com polvilho, chocolate, cigarro”, conta. Comida e água eram aquecidas em um fogareiro de querosene sólido “do tamanho de uma lata de graxa de sapato”.

No começo de outubro, Gregório e seus companheiros já haviam fuçado a Quebrada del Yuro (uma espécie de cânion) e cruzado com pára-quedistas do Centro de Instrução de Tropas Especiais no outro lado do rio Grande. O capitão Gary Prado, da companhia A, vasculhava Picacho. A “inteligência” infiltrava-se nas comunidades mais isoladas. Ficava claro que o objetivo não era derrubar o “Pombo”. “Tirando ele, a gente não falava de nenhum guerrilheiro em especial, até que o nome do Che vazou em uma conversa”, diz. No dia 6, orientados pelos relatos dos camponeses sobre homens sujos, maltrapilhos e armados, dormiram em La Higuera. Ao amanhecer, continuaram as buscas. De repente, “Gato” recebeu um chamado pelo rádio. “Era o ‘Tigre’ [Eduardo Huerta] , que estava rondando com parte do grupo, dizendo para a gente se encontrar no rio porque ele localizou a toca deles com restos de comida.” Fechava-se o cerco.

As anotações de Guevara refletiam a situação: “A rádio chilena informou sobre uma notícia censurada que indica existirem 1.800 soldados na região nos procurando”. Às 4h00 de 8 de outubro, as forças retornaram para a Quebrada del Yuro somente com a roupa do corpo, armas e munição. “Tigre” rumou para o norte, “Gato” permaneceu no leste e os demais felinos marcharam para o sul. Às 11h00, ecoou o primeiro disparo. “Às duas, comecei a descer pelo sul. Encontrei Gary Prado, o ‘Wily’ [Simón Cuba Sarabia, boliviano do bando de Guevara] e o Che, sem sapatos, com três pares de meia e as mãos amarradas”, lembra Gregório. À noite, em La Higuera, ele foi ver os prisioneiros, trancafiados na escola do vilarejo. “Che tinha uma ferida na panturrilha esquerda e queria mijar. Arrumei uma panela de barro. Desamarrei suas mãos e seus pés e ele se aliviou. Também pediu para fumar seu cachimbo.”

Na manhã do dia 9 de outubro, um helicóptero com oficiais posou em La Higuera. Tomaram o diário de Guevara (publicado no Brasil em 1997 pela editora Record) e deram um prato de sopa de amendoim para ele almoçar. Então, fuzilaram “Wily” e um outro combatente, “Chino” (o peruano Juan Pablo Chang Navarro). Às 13h00, o sargento Mario Terán desferiu dois tiros de M2 em Guevara. “Eu estava no mato fazendo minhas necessidades quando ouvi o barulho”, alega Gregório. Aos 39 anos, deitado no chão batido de uma escola nos confins da Bolívia, morria o guerrilheiro mais famoso do mundo. Dos 50 que iniciaram a campanha boliviana, 16 ainda seguiam Guevara e apenas cinco sobreviveram – o odiado “Pombo” entre eles.

Enquanto o destino do cadáver ilustre tomava proporções novelescas, Gregório continuou no exército até abril de 1968. Civil novamente, foi para Buenos Aires prestar cursos de pilotagem e de metalurgia. Na Argentina, virou dirigente sindical (“peronista”, ressalta). De volta à Bolívia como torneiro mecânico, conheceu Joana, catarinense que trabalhava como voluntária no colégio salesiano Dom Bosco, em La Paz. Casou com ela e se estabeleceu em Capivari de Baixo, a 140 quilômetros ao sul de Florianópolis, perto dos sogros. Dos tempos da guerrilha, sobrou pouca coisa. “Já fiz tantas mudanças que perdi quase tudo”, desculpa-se. “O garfo, faca e colher checos que ganhei do Che meu pai jogou no lixo.” Restaram duas fotos, o diploma de pára-quedista e a caderneta do serviço militar.

Para o ex-combatente, Guevara não ia vencer nunca. “Sua luta aconteceu na hora e no lugar errados, com a Bolívia sendo governada por um militar nacionalista [o general René Barrientos] e em uma área desabitada, longe de qualquer cidade”, opina. Gregório naturalizou-se brasileiro em 2002. Na quintal em frente de sua casa, uma placa do candidato a prefeito da cidade pelo Partido Progressista (PP) entrega de que lado ele sempre esteve.

BOX: O santo justiceiro
Com Che Guevara fuzilado, as autoridades bolivianas apressaram-se em divulgar a surrada (e eficiente) versão da “morte em combate”. A lorota não se sustentou nem dois dias. Em 10 de outubro de 1967, o médico Reginaldo Ustariz Arze examinou o cadáver na lavanderia do hospital de Vallegrande e denunciou o assassinato à imprensa. Os militares resolveram a polêmica com a sutileza habitual: obrigaram o doutor linguarudo a fugir (ele veio para o Brasil, seu lar até hoje) e sumiram com o corpo. Os restos mortais só reapareceram em 1997, em uma vala comum próxima ao aeroporto da cidade, depois que o general reformado Mario Vargas Salinas resolveu abrir a boca. Os ossos viajaram para Cuba, onde o “companheiro” Fidel Castro os recebeu com honras de Estado.

Os trinta anos em que o paradeiro final de Che Guevara permaneceu ignorado deram um toque sobrenatural à biografia do guerrilheiro. Na região em que travou suas últimas batalhas, a imagem de homem martirizado por lutar pelos pobres despertou a fé cristã. Ele se tornou Santo Ernesto de la Higuera, a quem os nativos pedem para salvar a colheita, recuperar a vaca roubada ou curar o filho canceroso. O “lado escuro da Força” também se manifestou com intensidade: existiria uma maldição, corroborada pelas desgraças que acometeram muitas pessoas relacionadas com a captura e morte de Guevara. A série de coincidências trágicas foi observada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano no livro Dias e Noites de Amor e de Guerra (publicado no Brasil em 1979 pela editora Paz e Terra, e pela coleção L&PM Pocket em 2001).

O presidente da Bolívia, general René Barrientos, que deu a ordem para matar o guerrilheiro, foi carbonizado na queda de seu helicóptero, em 1969. Em 1970, o tenente Eduardo Huerta morreu em um acidente de carro. O coronel Roberto Quintanilla, que exibiu o cadáver de Guevara a fotógrafos e jornalistas, tombou com dois tiros no peito em Hamburgo, na Alemanha, em 1971. O tenente-coronel Andrés Selich, que preparou a execução, não resistiu ao tratamento que recebeu dos torturadores leais ao ditador da hora, o general Hugo Banzer, em 1972. O general Juan José Torres, chefe do Estado-Maior e um dos que decidiram pela solução radical, foi assassinado em Buenos Aires, onde estava exilado após sua deposição da presidência boliviana, em 1976. No mesmo ano, o coronel Joaquín Zenteno Anaya sofreu um atentado fatal em Paris.

Em 1981, o coronel Gary Prado, capitão da companhia A na época da guerrilha, ficou paraplégico por causa dos tiros que levou durante um protesto dos petroleiros em Santa Cruz de La Sierra. O sargento Mario Terán, autor dos disparos que mataram Guevara, vagueia pirado por Cochabamba. O segundo-sargento Gregório Santillan Merubia, que improvisou um penico para o prisioneiro da escola de La Higuera, não acredita em bruxas. Nem no santo, nem no justiceiro.

20090829

Um tapa na cara da sociedade

A maior parte do que poderia ser salivado sobre o disco de estreia de Mayer Hawthorne já foi derramada pelos filezinhos servidos de entrada. O cara é bom mesmo. Compôs, tocou, cantou e produziu praticamente tudo em A Strange Arrangement, que de estranho não tem nada – a menos que o mesmo mundo que aclamou Obama não esteja preparado para dar confiança a um caucasiano que não era nem nascido quando os afrodescendentes incorporados em sua música afiançavam o pop. Mas pode acreditar: essa alma toda (incluindo o solo de guitarra) é do gurizão ali da capa.

MAYER HAWTHORNE, Green Eyed Love